A derrota por 2 a 0 para o Athletico Paranaense foi construída a partir de duas falhas individuais grosseiras. Primeiro, Juninho errou. Depois, Félix Torres entregou um passe diretamente no pé do atacante adversário, que ficou livre para marcar. Erros assim ajudam a explicar o resultado, mas o que aconteceu depois da falha do zagueiro equatoriano diz ainda mais sobre o momento vivido pelo Internacional.
Félix Torres foi substituído e não gostou. Saiu de campo esbravejando e, ao chegar ao banco de reservas, recolheu a mão quando Pablo Fernández, integrante da comissão técnica colorada, tentou cumprimentá-lo. Um jogador que havia acabado de cometer um erro decisivo se recusou a cumprimentar um profissional do clube porque estava contrariado com a substituição.

Na entrevista coletiva, porém, quem acabou se desculpando foi a comissão técnica. Esteban Conde, auxiliar que comandou o time na ausência de Paulo Pezzolano, explicou que Félix Torres foi retirado porque havia a impressão de que ele sentia algum problema físico. A comissão, portanto, não o substituiu pelo erro cometido. Mesmo assim, diante da reação do jogador, o auxiliar considerou necessário fazer um pedido público de desculpas.
A mensagem transmitida é péssima. Um jogador falha de maneira absurda, reclama da substituição, desrespeita um integrante da comissão técnica e, ao final, recebe um pedido de desculpas. Em vez de Félix Torres ter de explicar seu comportamento, foi o treinador quem precisou se justificar. A hierarquia ficou completamente invertida.
A falta de comando vem de cima
O episódio não pode ser analisado de forma isolada. Ele é mais um sintoma da falta de comando que tomou conta do Internacional. O presidente Alessandro Barcellos praticamente deixou de falar publicamente. Já não aparece com a mesma frequência nas entrevistas coletivas e parece ter transferido esse papel para o vice-presidente Victor Grunberg, que novamente esteve diante dos microfones após a derrota.

O problema não é Victor Grunberg falar (às vezes até é). O problema é o presidente não falar. Em um dos momentos mais delicados da temporada, o principal dirigente do clube se afasta da linha de frente e deixa de assumir publicamente a responsabilidade que o cargo exige. O silêncio também comunica, e o silêncio de Alessandro Barcellos passa a sensação de uma direção sem força, sem voz e sem disposição para enfrentar a crise.
O caso de Thiago Maia é outro exemplo dessa inversão de autoridade. O Internacional passou um longo período aguardando a decisão de um jogador que já quis deixar o clube, já teve uma transferência para o Santos encaminhada, custou caro e pouco consegue estar disponível. Ainda assim, era o Inter que parecia esperar a boa vontade do atleta para saber quando ele teria interesse em discutir uma renovação contratual.
É o clube aguardando o jogador. É a direção aceitando o tempo do jogador. É a instituição abrindo mão de estabelecer suas próprias condições. Quando isso acontece, a hierarquia deixa de existir. Os atletas passam a agir como querem, a comissão técnica perde força e a direção assiste a tudo sem conseguir impor autoridade.
O Internacional sempre foi marcado por dirigentes fortes, lideranças presentes e ambientes nos quais cada profissional sabia exatamente qual era o seu papel. O que se vê hoje é o contrário. Há uma sensação permanente de que tudo está solto, de que ninguém estabelece limites e de que não existe uma figura verdadeiramente no comando.
As falhas de Juninho e Félix Torres custaram dois gols contra o Athletico Paranaense. A falta de comando, no entanto, custa muito mais caro, porque não decide apenas uma partida. Ela enfraquece a comissão técnica, dá poder excessivo aos jogadores, contamina o ambiente e diminui o peso da própria instituição.
Alessandro Barcellos está no último ano de sua gestão, e o Internacional que apresenta neste momento não condiz com a história nem com a grandeza do clube que preside. O problema não é apenas perder. O problema é perder sem reação, sem autoridade e sem que ninguém pareça estar verdadeiramente no comando.

