
POR QUE ISSO AINDA INCOMODA?
Todo ano é a mesma coisa. No Dia Internacional do Orgulho LGBT, o Inter publica uma foto do Beira-Rio iluminado com as cores do arco-íris e, independentemente da rede social, os comentários são inundados com mensagens de ódio e reclamações sem sentido, muitas delas relacionando a ação com os problemas do futebol, como se uma coisa tivesse algum tipo de relação com a outra.
Ontem não foi diferente de nenhum dos outros dias 28 de junho que tivemos nos últimos anos. Mesmo em meio a uma Copa do Mundo, sem jogos do Inter, essa mesma reclamação persistiu. Como se, na cabeça de algumas pessoas, o próprio Paulo Pezzolano escalasse Bernabei, Borré, Alan Patrick e Anthoni para se reunirem no CCO, o Centro de Controle de Operações do Beira-Rio, e se dividirem nas tarefas: mudar as cores do estádio, fotografar o Gigante, escrever a legenda do post e publicá-lo nas redes sociais.
E estamos falando da única ação que o Inter faz recorrentemente durante a data. Não é uma grande ação, um evento, um vídeo superproduzido, uma campanha de conscientização… nada disso. É só um post institucional comum, com a mesma atenção que é dada ao dia 12 de dezembro, quando o Beira-Rio fica iluminado em laranja em apoio à campanha Dezembro Laranja, iniciativa nacional de prevenção ao câncer de pele.
E não estou aqui dizendo que uma ou outra causa deveria ter mais ou menos atenção. Estou apenas constatando um fato: o que o Inter faz no dia 28 de junho não é diferente do que faz em outras datas em que campanhas de apoio, orgulho e prevenção são realizadas. Mas a desse dia é a que causa a maior reação negativa de todas.
E a resposta para a pergunta que intitula esta coluna, infelizmente, é muito simples: isso ainda incomoda porque ainda vivemos em uma sociedade profundamente preconceituosa. E é justamente por isso que ações afirmativas, mesmo as mais simples, seguem sendo necessárias. Não porque uma foto do Beira-Rio colorido vá resolver o problema, mas porque a reação a ela mostra que o problema continua existindo. Quando uma mensagem básica contra o preconceito é tratada como provocação, o incômodo já não está na ação do clube, mas em quem se sente ofendido por ela.
A minha questão é justamente essa. Eu não consigo entender como alguém se sente atacado ou desrespeitado porque o Sport Club Internacional publicou uma mensagem de combate ao preconceito. Não estamos falando de futebol, escalação, contratação ou desempenho dentro de campo. Estamos falando de um clube que, por alguns minutos, iluminou seu estádio e usou suas redes para dizer que pessoas LGBT também merecem respeito. E se isso é suficiente para fazer alguém ameaçar deixar de ser sócio, com certeza o problema não é a cor da luz no Beira-Rio.
